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19ª MOSTRA REGIONAL DE PRÁTICAS EM PSICOLOGIA DO RIO DE JANEIRO: DIREITOS HUMANOS, SAÚDE E A FORÇA DA CIRCULARIDADE NO ENCERRAMENTO DO MAIOR EVENTO DA PSICOLOGIA FLUMINENSE
Data de Publicação: 23 de setembro de 2026
Nos dias 16, 17 e 18 de julho, o SuperCampus Maracanã da Universidade Estácio de Sá, na Zona Norte do Rio de Janeiro, foi o centro de um movimento político, científico e afetivo muito marcante. A 19ª Mostra Regional de Práticas em Psicologia, organizada sob o tema central “Psicologia na Circularidade: Saberes que Transformam, Práticas que Conectam”, terminou deixando um marco importante na história da psicologia brasileira. Reunindo um recorde histórico de mais de 3.400 inscritos vindos de mais de 60 municípios fluminenses, o evento se consolidou como o maior e mais expressivo espaço gratuito de debate e troca profissional do país. Foram 640 trabalhos científicos e de relatos de experiência apresentados em 115 sessões, que desenharam um mapa vivo das psicologias que se fazem nos territórios, nas favelas, nos quilombos, nos serviços públicos e nas clínicas do estado do Rio de Janeiro.
Mesa de Encerramento Institucional: Balanço Coletivo e a Grandiosidade da Psicologia Fluminense
Dando início aos momentos de encerramento, a mesa de balanço institucional celebrou a superação de metas e a boa organização do evento, reunindo lideranças que representam o compromisso do Sistema Conselhos com a valorização da categoria. A mesa foi coordenada por Elisa Martins (CRP 05/64825), conselheira e coordenadora adjunta da Comissão Organizadora da 19ª Mostra, e contou com as participações de Viviane Siqueira Martins (CRP 05/32170), conselheira presidenta do CRP-RJ, e de Ivani Oliveira (CRP 06/121139), presidenta do Conselho Federal de Psicologia (CFP).
Elisa Martins (CRP 05/64825) abriu a sessão visivelmente emocionada ao apresentar os números recordes alcançados nesta edição. Elisa destacou o papel fundamental desempenhado pelos 76 estudantes e profissionais voluntários que atuaram na monitoria e na comissão científica de avaliação, garantindo o funcionamento impecável e democrático do evento. Ao reafirmar o caráter inteiramente gratuito da Mostra, a conselheira sublinhou que a manutenção desse espaço de formação é um ato de resistência ética que assegura que estudantes, pesquisadores e profissionais de ponta tenham acesso igualitário à produção de conhecimento e ao fortalecimento de suas redes.
Em seu pronunciamento de agradecimento, a presidenta do CRP-RJ, Viviane Siqueira Martins (CRP 05/32170), elogiou o trabalho incansável da Comissão Organizadora (Comorg) nos bastidores e chamou a atenção para o expressivo crescimento na estrutura do evento ao longo dos anos. Viviane destacou que o CRP-RJ se consolidou como o segundo maior conselho do país em número de profissionais ativos, o que exige da categoria se reconhecer em sua força coletiva e em sua responsabilidade política na produção de referências de atuação. Ela apontou que a grandeza do evento reflete a própria grandeza da Psicologia no Rio de Janeiro, sendo um espaço que não cabe mais em formatos pequenos e que exige de todas as pessoas a ocupação contínua dos espaços públicos e a valorização do fazer profissional.
Finalizando as saudações institucionais, a presidenta do CFP, Ivani Oliveira (CRP 06/121139), parabenizou o regional fluminense pela trajetória de quase duas décadas de realização da Mostra. Ivani enfatizou que a atuação e os debates do Rio de Janeiro servem como exemplo e referência para todo o país. Diante de uma categoria nacional de mais de 600 mil profissionais e 200 mil estudantes em formação, a presidenta do CFP defendeu que as recém-atualizadas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) exigem a formação de profissionais comprometidos com a saúde pública, a assistência social e as políticas que garantem os direitos fundamentais. Ela afirmou que a circularidade que reuniu o público na Mostra ensina que o conhecimento se constrói no encontro, na escuta e no desejo de transformar a realidade de forma coletiva, esperando que essa circularidade continue presente no dia a dia da profissão.
Direitos Humanos e Saúde: o Rio de Janeiro como Palco de Lutas, Margens e Marretas
Na sequência, teve início a aguardada Mesa de Encerramento Temática, intitulada “Direitos Humanos e Saúde: o Rio de Janeiro como palco”. Sob a mediação sensível e firme de Luciene da Silva Lacerda (CRP 05/09715), psicóloga da UFRJ, mestre em saúde coletiva pela IESC/UFRJ, que coordena a Comissão de Direitos Humanos e Comissão Especial de Psicologia e Ambiente Universitário do CRP RJ e é criadora da Campanha dos 21 dias de Ativismo Contra o Racismo, o debate reuniu três importantes referências da luta social e dos direitos humanos no estado: Jaqueline Gomes de Jesus (CRP 05/49337), professora de Psicologia do IFRJ - Campus Belford Roxo e conselheira no Conselho Federal de Psicologia, no qual coordena a Comissão de Direitos Humanos; Monique Cruz, assistente social, mestre em serviço social, coordenadora na justiça global, membra da mesa diretora do Comitê Nacional de Prevenção e Combate à Tortura, que compõe o Grupo de Pesquisa Sociabilidades Urbanas, Espaço Público e Mediação de Conflitos (GPSEM/UFRJ); e Lúcia Xavier, assistente social, coordenadora geral e co-fundadora de CRIOLA, organização de mulheres negras com sede no Rio de Janeiro, que tem como missão instrumentalizar mulheres negras contra o racismo patriarcal cisheteronormativo.
A professora Jaqueline Gomes de Jesus (CRP 05/49337) iniciou sua fala propondo uma reflexão crítica sobre o termo palco aplicado ao Rio de Janeiro. Ela ressaltou as divisões do território e as desigualdades históricas do estado, refletidas na dificuldade histórica de articulação política entre a capital e as demais regiões fluminenses, como a Baixada Fluminense. Ao relatar sua experiência de ensino em Belford Roxo, município muitas vezes marcado pela violência, Jaqueline defendeu a educação e a economia criativa como forças de transformação contra as tentativas de exclusão das elites locais. Ela denunciou os ataques ideológicos e o preconceito dirigidos contra os debates sobre diversidade, gênero e as formações técnicas no campus, lembrando de falas de políticos que afirmavam que os jovens da periferia deveriam aprender apenas a ser pedreiros e serventes. A palestrante defendeu que a saúde mental e os direitos humanos não podem ser vistos como favores, mas como direitos básicos a serem construídos de forma contínua por meio de articulações em rede e nas margens do sistema. Jaqueline afirmou que o trabalho de maior impacto tem sido construído nas margens, por meio de redes vivas de afeto e solidariedade, em articulação com estudantes e comunidades para resistir e criar novas possibilidades de vida.
A assistente social Monique Cruz trouxe ao debate uma análise detalhada sobre a violência institucional e as mortes causadas pela polícia. Criada em Manguinhos, ela compartilhou como o aprendizado prático em pesquisa comunitária, ao ouvir os moradores e dar retorno sobre os estudos realizados, ajudou a construir sua trajetória profissional. Monique relatou sua experiência de estágio no Complexo Penitenciário de Bangu (SEAP), caracterizando a prisão como um espaço que gera sofrimento e retira os direitos das pessoas. Atuando em ações internacionais na Corte Interamericana de Direitos Humanos e na ONU, Monique denunciou o fato de que o Rio de Janeiro funciona historicamente como um laboratório de exportação de técnicas de morte, tortura e intervenções violentas do Estado, que atingem principalmente os corpos negros e as periferias. A assistente social apontou que o fechamento constante de serviços públicos de saúde, como as UPAs, durante operações policiais é uma das marcas mais cruéis de como as ações do Estado adoecem e impedem as condições básicas de vida dos moradores das periferias.
Encerrando as falas da mesa, a assistente social Lúcia Xavier fez uma apresentação marcante que chamou a atenção de todo o público. Lúcia pontuou de forma clara que os direitos humanos não são naturais ou concessões divinas, mas sim acordos políticos construídos a partir de disputas por poder, recursos e território. Ela alertou que hoje vivemos uma crise profunda desse acordo de 70 anos, marcada pela tentativa de retirar a dignidade da maior parte da população para garantir os privilégios econômicos de poucos. Ao falar sobre saúde, Lúcia defendeu que o conceito vai muito além da ausência de doenças, referindo-se às condições e modos de viver de forma digna. Ela convocou a Psicologia a rever com cuidado as teorias tradicionais de sua formação antiga, que muitas vezes serviram para silenciar, moldar, tratar como doentes ou excluir as populações negra e indígena. Lúcia relembrou com emoção a parceria histórica com o CFP que resultou na publicação da Resolução CFP nº 018/2002, o documento oficial que orienta psicólogas e psicólogos a trabalharem contra o preconceito e o racismo. Sob aplausos de pé, Lúcia concluiu que o racismo não é apenas uma humilhação entre pessoas, mas sim a estrutura perversa que determina quem fica com as terras, quem fica com o poder e quem tem o direito de viver ou de morrer. Para ela, a Psicologia precisa de menos teorias salvadoras e de mais ações reais para quebrar essa estrutura de dominação e reconstruir a dimensão de humanidade de todas as pessoas.
Para acompanhar todas as discussões e assistir à mesa de encerramento completa, acesse o link de transmissão oficial no YouTube: https://www.youtube.com/live/km2u7qgqoMI?si=GYxMd2MegAsHS0Wr
Rodas de Conversa: O Núcleo Dinâmico que Mobilizou a 19ª Mostra
Para fechar o evento de forma completa e reunir as discussões que atravessaram os três dias, trazemos aqui o registro das Rodas de Conversa, que foram espaços muito importantes de participação na 19ª Mostra de Práticas em Psicologia. Enquanto as mesas temáticas traziam debates profundos com palestrantes no auditório principal, as rodas aconteciam nas salas, permitindo que o público participasse diretamente das discussões e compartilhasse seus próprios saberes.
Ao todo, 16 rodas de conversa distribuídas ao longo dos três dias de programação serviram como espaços importantes de escuta, diálogo e construção coletiva. Ali, profissionais, estudantes, movimentos sociais e pesquisadores debateram de forma direta temas urgentes para o desenvolvimento ético do trabalho e para a defesa dos direitos humanos na sociedade. Esse formato de participação ajudou a gerar reflexões profundas sobre as realidades locais, promovendo uma troca importante de saberes tradicionais, técnicos e políticos, além de fortalecer as redes de apoio, escuta e articulação profissional da categoria.
Relembre, a seguir, a diversidade dos temas abordados em cada dia do evento:
16 de julho
- Maconha e Psicodélicos: caminhos para atuação com pessoas que usam drogas
- Psicologia e Socioeducação: Interface entre as medidas socioeducativas em meio aberto e fechado
- Grupo de Vivências LGBTQIA+
- Entre territórios e práticas: a Psicologia no interior
- Memórias nas políticas públicas: saúde e políticas de encarceramento
- Lançamentos de Referências Técnicas do CREPOP: Gestão do SUAS (Sistema Único de Assistência Social)
17 de julho
- Oficina de Mediação de Conflitos - Antipunitivismo na Saúde Mental: caminhos para transformar conflitos em cuidado
- Psicologia na luta pelos direitos trabalhistas: 30 horas, NR1, piso salarial
- Desafios da psicologia do tráfego na atualidade
- 1° Fórum de Psicologia e Relações Étnico-Raciais do CRP-RJ: Práticas que conectam: circularidade e o compromisso antirracista dos Conselhos
- Lançamentos de Referências Técnicas do CREPOP: População em situação de rua (Pop rua)
- Comissão de Orientação e Ética (COE): mais orientativa do que punitivista
- Clínica e sociedade: a construção dos e-books
- Psicologia e desastres socioambientais: na perspectiva interseccional da Assistência Social
18 de julho
- Lançamentos de Referências Técnicas do CREPOP: Idosos
- Encontro de saberes nas confluências afropindorâmicas do cuidado
- Psicologia e Laicidade: desafios para atuação profissional
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