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PRÉ MOSTRA REGIONAL DE PRÁTICAS EM PSICOLOGIA OCORRE NA REGIÃO LESTE: DIÁLOGOS SOBRE ÉTICA, INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E DESCENTRALIZAÇÃO ACONTECEM EM SÃO GONÇALO
Data de Publicação: 1 de setembro de 2026
O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) realizou no dia 04 de julho, na Universidade Estácio de Sá, campus Alcântara, localizada no município de São Gonçalo, a Pré Mostra de Práticas em Psicologia da Região Leste. O tema guiado foi "Psicologia na circularidade: saberes que transformam, práticas que conectam”, que foi o tema da 19ª Mostra que ocorreu na capital entre os dias 16 e 18 de julho. Essa proposta entende que o conhecimento não nasce de forma isolada, mas se constrói coletivamente nos encontros, nas experiências compartilhadas e no reconhecimento das memórias e múltiplas formas de existir. O evento contou com uma participação expressiva do público, com o auditório lotado, o que evidenciou que as(os) estudantes e profissionais da região estão altamente engajados e produzindo conhecimento de excelência.
As transmissões das mesas podem ser acessadas pelo canal oficial do CRP-RJ no YouTube.
Mesa de Abertura Institucional e Mesa de debates 1 (Manhã): https://www.youtube.com/live/IiJ2bVc3K0c?si=_mwgBTPzl5TDZgct
Mesa de debates 2 (Tarde): https://www.youtube.com/live/L-4yW091iwo?si=pJ79M8hgn6mW1TTD
Mesa de Abertura Institucional
O evento contou com a mediação do psicólogo Bruno Pereira da Silva Rosa (CRP 05/67901), conselheiro coordenador da Comissão Gestora Leste Fluminense do CRP-RJ, supervisor clínico, ator e pesquisador nas áreas das relações étnico-raciais, gênero e sexualidade. A mesa de abertura institucional contou com Viviane Siqueira Martins (CRP 05/32170), conselheira presidenta do CRP-RJ, juntamente com Felipe Costa (CRP 05/52919), mestre em Psicologia, professor universitário, coordenador do curso de Psicologia da Estácio Alcântara e psicólogo clínico. A abertura ressaltou a importância de realizar eventos de cunho científico e prático fora da capital, preparando as(os) profissionais, capacitando as(os) estudantes e celebrando a troca de fazeres das políticas públicas diretamente nos territórios onde elas acontecem.
Bruno Rosa iniciou o evento contextualizando a criação do CRP-RJ em 1971 pela Lei 5.776, apontando que atualmente o órgão abrange mais de 50 mil profissionais inscritos no estado do Rio de Janeiro. Explicou que, para aproximar as ações institucionais do território, o Conselho se descentraliza em subsedes, como a de Niterói (fundada em 1980), que gerencia 19 municípios e conta com 14 universidades com cursos de Psicologia na Região Leste Fluminense. Ele ressaltou que Niterói e São Gonçalo formam o segundo e o terceiro maiores colégios de profissionais inscritos do estado. Ao abordar o tema da circularidade, convidou a categoria a valorizar suas práticas cotidianas nos territórios e refletir criticamente sobre o compromisso social da profissão.
Felipe Costa celebrou a honra de acolher a Pré-Mostra na Universidade Estácio de Sá, campus Alcântara, destacando que a aproximação precoce das(os) estudantes com as atividades institucionais e políticas do Conselho é indispensável para que elas(es) possam "antecipar aquilo que serão" na futura prática profissional.
Viviane Martins relembrou a trajetória histórica das Mostras de Práticas em Psicologia iniciadas na década de 2000 em âmbito nacional e o papel das Pré-Mostras, que surgiram na Baixada Fluminense como pequenos encontros preparatórios locais para incentivar a troca de experiências antes do evento geral. Salientou que a marca da atual gestão reside na descentralização e regionalização efetiva, mobilizando a mesma estrutura operacional, palestrantes de alto nível e acervos técnicos da capital para os demais municípios do estado. Por fim, reforçou o compromisso irredutível com os Direitos Humanos, base da profissão e a garantia de direitos.
Mesa de Debates 1: Os limites da inteligência artificial e a ética em Psicologia
A primeira mesa de debates abordou o tema "Os limites da inteligência artificial e a ética em Psicologia", mediada por Juliana Ribeiro Camelo, estudante de Psicologia pelo Centro Universitário UniLasalle do Rio de Janeiro e colaboradora na Comissão Gestora Leste, representando a perspectiva estudantil nas instâncias de debate. A mesa contou com a presença da psicóloga Isabela Rocha, especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais, mestre em Psicologia Social, doutoranda em Psicologia Clínica e professora da Universidade Estácio de Sá, e de Zarlete Faria (CRP 05/15377), psicóloga e gestora da Comissão de Orientação e Fiscalização (COF) do CRP-RJ.
Isabela Rocha falou sobre a inserção generalizada e massiva das ferramentas de inteligência artificial (IA) na sociedade contemporânea, operando desde controles cotidianos de voz e portaria automática até agendamentos virtuais em consultórios. Definiu as IAs como sistemas matemáticos computacionais desenhados a partir de correlações probabilísticas que simulam a linguagem natural e comportamentos inteligentes, mas que são desprovidas de sentimentos reais, consciência, compreensão de contextos de subjetividade ou capacidade de julgamento clínico. Alertou para o uso clínico dessas ferramentas (como agendamento automático e prontuários), chamando especial atenção para a transcrição de sessões. Explicou que as plataformas que prometem transcrever reuniões virtuais exigem por definição a retirada das configurações de criptografia de ponta a ponta, transferindo dados extremamente sensíveis de pacientes para nuvens sob custódia de corporações privadas. Pontuou que o uso de tais recursos requer transparência absoluta, consentimento livre e elucidações aos pacientes. Finalizou alertando sobre as pesadas multas administrativas impostas pela LGPD para vazamentos de dados sensíveis.
Zarlete Faria falou sobre o entendimento oficial do Conselho sobre as novas tecnologias, assinalando que o sistema conselhos compreende a inteligência artificial exclusivamente como uma ferramenta complementar e instrumentalizada, incapaz de eximir a responsabilidade ética da(o) psicóloga(o) pela condução do caso clínico. Zarlete alertou que os sistemas de IA cometem equívocos grotescos, gerando referências falsas e citações legislativas fictícias, representando enorme risco na confecção de relatórios, laudos e atestados (campo com o maior índice de denúncias e infrações éticas registradas na COF). Recomendou as(aos) estudantes e profissionais que não utilizem inteligências artificiais sem garantias contratuais firmes de confidencialidade e privacidade de dados, reiterando a estrita observância aos Artigos 1º (deveres fundamentais) e 2º (vedações profissionais) do Código de Ética da categoria.
Mesa de Debates 2: Psicologias à Brasileira: veredas para pensar as formações territoriais
A segunda mesa do evento contou com o tema "Psicologias à Brasileira: veredas para pensar as formações territoriais", mediada pela psicóloga e conselheira do CRP-RJ Ianara de Moura Medeiros (CRP 05/39745), membro atuante na Comissão Gestora Leste. Participaram o psicólogo Waldenilson Ramos (CRP 05/72529), mestre em Psicologia, pesquisador da UFF, colaborador da Comissão Gestora Leste Fluminense do CRP-RJ e autor do livro "Por uma escrita imunda e por uma clínica do social", e Hildeberto Martins (CRP 05/24193), ex-membro do XVI Plenário do CRP-RJ, ex-presidente da ABRAPSO, psicólogo, doutor em Psicologia Social e professor associado da UFF.
Em sua fala, Waldenilson Ramos trouxe o debate decolonial sobre o fazer psicológico no território nacional, utilizando a análise linguística e morfológica do próprio termo "brasileiro". Explicou que o sufixo "eiro" remete historicamente às atividades laborais de extração física (como padeiro, barbeiro ou o antigo extrator do pau-brasil), apontando que a própria designação da identidade nacional brasileira carrega na morfologia a marca original da exploração violenta da força de trabalho no período colonial. Ele criticou a postura de neutralidade científica da Psicologia hegemônica que perpetuou opressões, defendendo um rompimento com o "espírito branco" colonial de devastação bélica e epistemicídio dos povos tradicionais. Waldenilson realizou também uma defesa contundente da "Psicologia Imunda" que seria uma Psicologia que não se propõe a nenhuma pureza ou limpeza mas que se suja e se impregna das vivências das travestis, dos gays, das mulheres, da negritude e dos saberes indígenas nos territórios. Alinhado a Conceição Evaristo na obra "Becos da Memória", argumentou que a Psicologia deve atuar ativamente nas favelas, nas periferias e no desenho das políticas públicas com uma profunda ética da coragem e compromisso irrestrito com a heterogeneidade e a diversidade sociocultural.
Hildeberto Martins trouxe sua fala a partir da história social da Psicologia e da Psicologia social crítica, inserindo como questão norteadora o debate acerca do estabelecimento concreto de uma Psicologia tipicamente brasileira. Ilustrou sua hipótese detalhando o caso histórico da "Escola de São Paulo" da PUC-SP (encabeçada por Silvia Lane, Wanderley Codo e Bader Sawaia), formulada como contraponto crítico à reprodução do modelo hegemônico de Psicologia social positivista de base norte-americana, que havia sido introduzida por Aroldo Rodrigues na PUC-Rio. Ele elucidou que a Escola de São Paulo estruturou a abordagem da Psicologia Sócio-Histórica no Brasil, firmando um compromisso ético de produzir conhecimento atrelado às contradições da realidade latino-americana. Ele celebrou as intensas modificações no perfil socioeconômico das universidades públicas e particulares brasileiras nas últimas duas décadas, constituindo espaços mais diversos e inclusivos. Contudo, denunciou a persistência de um discurso inclusivo com uma prática exclusiva, provocando a categoria docente e discente a superar a exclusividade das bibliografias europeias e incorporar referências nacionais fundamentais de pensadores negros e decoloniais, como Alberto Guerreiro Ramos, Virgínia Leone Bicudo e Neusa Santos Souza.
Apresentações de Trabalho, Mobilização e Encerramento
Após a finalização das mesas temáticas de debate, realizou-se a apresentação de trabalhos e relatos de experiência científica dos acadêmicos e profissionais inscritos no evento. Essa etapa proporcionou uma rica troca de fazeres e saberes das práticas psicológicas operadas cotidianamente na ponta, constituindo um momento de consolidação preparatório para a mostra principal fluminense a ocorrer na capital.
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