Violência de Estado é debatida no 55º Cine Psi Baixada em Nova Iguaçu

Categoria(s):  BAIXADA, DESTAQUE DA SEMANA, DIA DO PSICÓLOGO, Notícias   Postado em: 28/08/2018 às 10:55

IMG_5136“Narrativas e resistências” foi o tema da 55ª edição do Cine Psi Baixada, que aconteceu no dia 20 de agosto, na Subsede do CRP-RJ em Nova Iguaçu, reunindo psicólogas (os), estudantes, militantes, pesquisadores e membros da comunidade em geral para debater violência de Estado na região da Baixada Fluminense.

Promovido pela Comissão Gestora do CRP-RJ na região, em parceria com o Fórum Grita Baixada (FGB), o Instituto de Estudos da Religião (ISER) e a Rede de Mães e familiares de vítimas de violência do Estado na Baixada, o evento contou com a exibição do documentário “Nossos mortos têm voz”.

Produzido pela Quiprocó Filmes em parceria com o Fórum Grita Baixada e o Centro de Direitos Humanos de Nova Iguaçu, o filme apresenta depoimentos dos familiares de vítimas da violência de Estado na Baixada. A partir do depoimento dos familiares e imagens de arquivos, pretende-se resgatar a memória dessas vidas interrompidas trazendo uma visão crítica sobre a atuação da polícia na região, sobretudo no que diz respeito à violência contra jovens negros.

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Mônica Sampaio

As conselheiras integrantes da Comissão Gestora, Mônica Valéria Affonso Sampaio (CRP 05/44523) e Viviane Siqueira Martins (CRP 05/32170), deram as boas-vindas às (aos) participantes e ressaltaram que essa edição do Cine Psi integra o calendário de eventos preparatórios para o 10º Congresso Regional de Psicologia (COREP), que acontecerá no primeiro semestre de 2019 para que psicólogas (os) votem diretrizes de ações políticas para a gestão do CRP-RJ no triênio 2019-2022.

Após a exibição do filme, teve início a mesa de debates, que contou com a participação de André Rodrigues, cientista político e pesquisador do ISER e professor da UFF, Marcelle Decothé, assessora técnica na produção da “Cartografia Social Sobre o Impacto da Militarização na Vida das Mulheres na Baixada”, Luciene Silva, da Rede de Mães e familiares de vítimas de violência do Estado na Baixada, e Douglas Almeida, do Fórum Grita Baixada. A mediação ficou por conta de Fernando Sousa, um dos diretores do documentário.

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Viviane Martins

Iniciando a mesa, Fernando Sousa apresentou dados alarmantes sobre o cenário da violência na Baixada. Segundo ele, entre 2006 e 2016, houve 20.645 pessoas assassinadas na Baixada, 17 mil pessoas desaparecidas, e mais de 20 mil tentativas de homicídio. “O documentário tem como pano de fundo esse cenário, além de muitas mortes que, por muitas vezes, ficam por detrás dessas estatísticas. São milhares de pessoas impactadas por esse cenário de violência na região”, afirmou.

Em seguida, Luciene Silva falou sobre o quadro de invisibilidade que a morte de jovens negros e pobres tem na região da Baixada. “Hoje, estamos tentando estruturar e fortalecer a rede de mães e familiares de vítimas na Baixada, mas, infelizmente, por vários motivos ainda não conseguimos totalmente. Como foi mostrado no filme, o cenário da Baixada na questão da violência, nas execuções e das mortes da juventude é bem diferente do Rio de Janeiro porque, geralmente, quando essas coisas acontecem no Rio, a visibilidade é muito maior, seja pela mídia ou pelas redes sociais. Aqui, na Baixada, nós não temos essa visibilidade para mostrar o que realmente acontece todos os dias aqui”, pontuou.

Ela também acrescentou que “temos vários algozes na Baixada: a milícia, o tráfico, os matadores e justiceiros, os grupos de extermínio, a polícia… Estão morrendo jovens todos os dias na Baixada, executados. Os casos mais graves que temos são os desaparecimentos, que infelizmente não entram para a estatística. Essas mães sofrem mais ainda porque têm seus filhos levados e executados e os corpos não aparecem para serem enterrados”.

André Rodrigues fez uma análise aprofundada do cenário de violência na Baixada. Conforme apontou, “Estado, mercado, criminalidade e poder são os componentes geradores dos homicídios da Baixada Fluminense. Eu quero pegar carona em uma fala do José Cláudio no filme, no qual diz que não existe um mercado criminoso paralelo ao Estado. Existe, na verdade, uma profunda continuidade entre os mercados criminosos e atuação estatal na Baixada”.

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Mesa de debates durante o 55º Cine Psi Baixada

“Quando falamos da violência no estado do Rio de Janeiro, temos a sensação, olhando o noticiário de crimes especialmente na Região Metropolitana do Rio, que a violência seria um fenômeno maligno que dá em arvore, um pé de maldade que seria a fonte inesgotável de violência. Isso não é verdadeiro de maneira alguma. O que existe é um mercado criminoso muito lucrativo, que tem a morte, o assassinato, como uma fonte de lucros e poder”, explicou o cientista político.

Ele também desmistificou a ideia comum de que a violência é um produto da vulnerabilidade social e da pobreza. “Durante muito tempo, se analisou o fenômeno da criminalidade violenta dos homicídios como um produto de vulnerabilidade social. Quero fazer um reparo de que isso é verdadeiro e falso ao mesmo tempo. É verdadeiro porque, obviamente, quem está mais vulnerável socialmente está mais vulnerável à violência. Porém, se encaramos que o fator que provoca a morte é a vulnerabilidade social, cometemos um erro interpretativo: se fosse assim, todas as áreas pobres do planeta seriam áreas muito violentas, o que não pé verdade. O que produz a violência nesses locais de maior vulnerabilidade social, como a Baixada, é basicamente a existência desses mercados criminosos”, afirmou.

Marcelle Decothé falou sobre a importância central da figura da mulher no contexto histórico, político e social da Baixada. Segundo ela, é importante, também, para analisar esse cenário de violência que atinge historicamente a Baixada, compreender que a região foi constituída como território baseado na raça e no gênero, construído e povoado por negros e cuja força produtiva é baseada na mulher.

“Não se estuda violência na Baixada sem se estudar raça ou racismo e sem entender as questões de gênero e o papel da mulher nesse território. É preciso entender como a sociedade da Baixada é matriarcal, como as famílias têm na mulher sua figura central. É preciso entender que o fenômeno da militarização na Baixada está, sim, presente na ação da polícia, quando entra na Chatuba, por exemplo, mas também está presente no peso da mão daquele homem que, vendedor no Centro de Nova Iguaçu, é agredido pela guarda e, ao chegar em casa, desconta essa raiva batendo em sua mulher”, destacou.

Encerrando a mesa de debates, Douglas Almeida problematizou o modo como a própria população da Baixada identifica e vê a questão da violência. “Quando perguntamos: ‘Você acha que a violência é maior hoje na Baixada ou já foi maior, por exemplo das nas décadas de 1980 e 90?’. Em muitos espaços, as pessoas identificam que a violência é maior hoje do que foi no passado porque, segundo elas, aumentou o número de roubos, furtos, assaltos. Quer dizer, a percepção de violência vai muito direcionada a uma lógica material, patrimonial. Não se vincula a violência à questão dos assassinatos, que é algo historicamente muito presente na realidade da Baixada”, afirmou.

Douglas almeida finalizou sua fala ressaltando que “é fundamental a discussão sobre segurança pública no estado do Rio de Janeiro, mas é preciso estar claro que o problema da segurança pública vai se resolver a partir de diferentes tipos de políticas públicas”.