Primeira mesa de debates da 13ª Mostra discute Saúde Mental e Reforma Psiquiátrica

Categoria(s):  MOSTRA, Notícias   Postado em: 12/07/2019 às 17:21

A primeira mesa de debates da 13ª Mostra Regional de Práticas em Psicologia aconteceu na noite do dia 3 de julho e teve como tema “Psicologia, Reforma Psiquiátrica e RAPS: porque precisamos falar o óbvio!”. A mediação ficou a cargo de Mônica Valéria Affonso Sampaio (CRP 05/44523), conselheira-coordenadora da Comissão Regional de Psicologia e Políticas Públicas do CRP-RJ, psicóloga que atua no atendimento junto a mulheres em situação de violência e técnica de referência no CRAS de Mesquita.

Marcelo Passos (CRP 05/43553), psicólogo do CAPS Nise da Silveira que já atuou pela Secretaria de Assistência Social de Petrópolis e pela Secretaria Municipal de Saúde do mesmo município compondo a equipe multidisciplinar do Consultório na Rua, compartilhou suas experiências de atuação nesse importante equipamento da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS).

“O Consultório na Rua é uma estratégia de garantir às pessoas em situação de rua o acesso aos serviços do SUS [Sistema Único de Saúde]”, revelou. “Uma frase que representa bem o que é o Consultório na Rua é ‘abolir a ideia do biopoder e aproximar em vez de espantar’”, destacou o psicólogo.

IMG_8499

Mesa de Debates – “Psicologia, Reforma Psiquiátrica e RAPS: porque precisamos falar o óbvio!”

O psicólogo falou sobre a atuação junto às pessoas em situação de rua e em sofrimento psíquico decorrente do uso de álcool e outras drogas e ressaltou a pertinência do CAPSAD III na construção de práticas efetivas de acolhimento e cuidado. O palestrante também mencionou os conflitos éticos experimentados em virtude da falta de unidades de acolhimento e equipamentos previstos na RAPS, mas não implementados no território.

Carla Santos Moreira (CRP 05/44421), psicóloga e coordenadora do Programa de Desinstitucionalização do Município de Campos dos Goytacazes, falou sobre o trabalho realizado no município para expandir a RAPS e ampliar a desinstitucionalização. “Campos é um município com aproximadamente 500 mil habitantes e toda a rede funcionava a partir de dois grandes manicômios, cada um com 120 leitos”, apontou.

“Uma das estratégias utilizadas foi passar, a partir de 2017, a encaminhar todas as pessoas que chegavam nas emergências para os serviços, como CAPS AD, CAPS infantil. O número de internações nesses hospitais psiquiátricos começou a cair numa proporção maior do que esperávamos”, afirmou a psicóloga. “Com isso, conseguimos desconstruir a necessidade do leito pela ampliação do funcionamento da RAPS, dos serviços substitutivos”, defendeu.

Por sua vez, Edna Candida Quintino (CRP 05/12328), psicóloga que atuou no processo de desinstitucionalização na Casa de Saúde de Volta Redonda e atualmente é coordenadora do CAPS Vila Esperança, destacou os desafios do matriciamento dos serviços dentro da RAPS. “A atividade matricial nada mais é do que a equipe multidisciplinar estar num dado território pensando o projeto terapêutico lada a lado com o indivíduo a partir das situações e dos casos pertinentes àquele território”, explicou ela.

“Se estamos pensando em uma lógica antimanicomial, com o matriciamento dentro da RAPS sendo um instrumento de tanto valor, então precisamos desconstruir os pensamentos e os lugares instituídos”, afirmou a psicóloga, defendendo que “o nosso movimento deve ser de ressignificar ações, relações e lugares”.

Encerrando a mesa, Eduardo Mourão Vasconcelos (CRP 05/32652), psicólogo, cientista político e professor da Escola de Serviço Social da UFRJ, apontou os desafios que a prática da (o) psicóloga (o) no SUS e nas demais políticas públicas trouxe para a Psicologia brasileira. “No consultório, nós esperamos os pacientes chegarem. Na atuação no território, a lógica é diferente. Precisamos agir, fazer visitar domiciliares, articular com outros setores e profissionais, levantar demandas. Isso tudo implica uma mudança no modo de fazer Psicologia e implica uma mudança de identidade profissional”, destacou ele.

Eduardo Mourão falou também sobre os retrocessos sofridos no campo da Saúde Mental desde 2016, a partir de quando, conforme destacou, a Atenção Psicossocial foi sendo gradativamente esvaziada e desmontada. “Eu pertenço ao Coletivo Pró-SUS e em Defesa da Reforma Psiquiátrica e, desde 2016, temos atuado fazendo uma luta coletiva em âmbito estadual e nacional”, ressaltou.