Nota de repúdio às declarações de Dunga sobre Psicologia do Esporte

Categoria(s):  ESPORTES, Notícias   Postado em: 03/05/2016 às 15:24

O CRP-RJ repudia as declarações proferidas pelo técnico da Seleção Brasileira de Futebol, Dunga, na terça-feira passada (26/04), durante mesa redonda no evento “Somos Futebol”, realizado pela CBF (Confederação Brasileira de Futebol) no Rio de Janeiro esta semana, onde o treinador questionou o respeito do psicólogo ao sigilo profissional e afirmou ser inviável que jogadores da Seleção Brasileira sejam atendidos por um(a) profissional da área.

Ao fazê-lo, o técnico ofende a categoria, questionando sua ética profissional, e demonstra total desconhecimento da Psicologia como ciência e profissão, e de sua importância, inclusive na evolução do esporte brasileiro e mundial, desde a iniciação esportiva ao alto rendimento, de forma direta e imprescindível, uma vez que diversas confederações nacionais e internacionais de esporte contam com a orientação de psicólogas(os) do esporte, cuja atuação se faz fundamental há longa data no desenvolvimento da qualidade de vida, da performance esportiva e profissional de atletas, treinadores e demais atores.

Com relação ao sigilo profissional, o Artigo 9º do Código de Ética Profissional do Psicólogo determina que “é dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que tenha acesso no exercício profissional”.

No que se refere à inviabilidade da atuação da(o) psicóloga(o) na instituição, esclarecemos que “a atuação do psicólogo do esporte está voltada tanto para o esporte de alto rendimento, quanto para a identificação de princípios e padrões de comportamento de adultos e crianças participantes de atividades físicas”, de acordo com a resolução nº 013/2007 do CFP (Conselho Federal de Psicologia), que institui o Título Profissional de Especialidade em Psicologia do Esporte.

Assim, dentro de uma instituição esportiva, o trabalho da(o) psicóloga(o) vai além de “meia hora” de conversa “a cada cento e vinte dias, a cada cento e trinta dias”, como disse Dunga. O trabalho do psicólogo do esporte é diário, contínuo, nos treinamentos, competições e diversos outros momentos.

O profissional estuda, identifica e compreende técnicas, métodos científicos e avaliações criteriosas que podem ser aplicadas ao contexto do esporte e do exercício físico, tanto em nível individual como grupal – praticantes de atividade física ou equipes esportivas. Participa, em equipe multidisciplinar, da preparação de estratégias de trabalho objetivando o aperfeiçoamento e ajustamento do praticante aos objetivos propostos, de acordo com sua característica individual.

As declarações de uma persona pública como Dunga são, portanto, absolutamente infelizes, sobretudo às vésperas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos que o Rio de Janeiro sediará em breve, nos quais, mais uma vez, a presença de profissionais da Psicologia se fará notável junto aos principais atletas e equipes profissionais, o que o treinador parece ignorar.

Questionamos também a CBF, que, diante destas informações a respeito da importância da psicologia dentre as ciências do esporte e dos exemplos que já existem junto a outras modalidades profissionais, confederações, comitês esportivos e times e seleções de futebol, hoje conceituadas e campeãs, não institui e oferece a todos os atletas e comissões técnicas das categorias de base até o profissional, um trabalho de psicologia adequado, contínuo e de longo prazo.

O Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) soma sua nota às do Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR), Conselho Regional de Psicologia de São Paulo (CRP-SP), Conselho Federal de Psicologia (CFP), Grupo de Trabalho (GT) de Psicologia e Esporte da Assembleia de Políticas, da Administração e das Finanças (APAF), e da Associação Brasileira de Psicologia do Esporte (ABRAPESP), na afirmação de uma Psicologia do Esporte, comprometida com a Ética Profissional, com o desenvolvimento humano, social e científico.