Laudo: ferramenta de intervenção?

Categoria(s):  ÉTICA, Notícias   Postado em: 10/11/2008 às 16:49

A segunda mesa de discussões do Fórum de Ética tratou dos laudos em quatro diferentes áreas de atuação: Educação, com Adriana Marcondes Machado; Justiça, com Leila Torraca de Brito; Trabalho, com Miguel Angelo Barbosa Maia; e Saúde, com José Henrique Valentim. Ana Maria Feijoó mediou o debate.

Leila iniciou falando que um dos maiores problemas do uso de laudos na Justiça é sua elaboração por psicólogos que não ouvem o sujeito sobre quem dão o parecer. “É hora de pensarmos não o que e como vamos fazer, mas por quê. A relação da Psicologia com a Justiça tem que ser analisada a cada demanda. O trabalho do psicólogo deve ser feito a partir de uma posição crítica e os laudos devem ser considerados em suas determinações históricas, sociais, políticas e culturais”.

Adriana ressaltou, por sua vez, a importância de se incluírem os professores na discussão sobre o uso dos laudos na Educação. “Talvez os casos da Educação não cheguem tanto ao CRP como denúncias devido à patologização e a medicalização que se dão na escola. O discurso é de que a criança não aprende porque tem algum problema. Mas o psicólogo não pode simplesmente ficar ressentido com a demanda dos professores por laudos e diagnósticos, pois, assim, ele perde a oportunidade de interagir com essa demanda. Essas demandas dos professores não são a causa dos nossos problemas, mas sim resultado de um processo no qual também estamos inseridos”.

Já José Henrique, ao falar sobre os laudos na Saúde, chamou a atenção para o lugar do psicólogo dentro do hospital. “O lugar do psicólogo dentro da instituição de saúde tem a ver com sua própria formação. Ele tem que ter uma filiação teórica que o possibilite fazer uma intervenção naquele espaço. O psicólogo não é um auxiliar dos outros profissionais de saúde”.

Ele ressaltou ainda que o foco do psicólogo no hospital tem que ser no paciente. “Geralmente, demanda-se que seu trabalho seja o de convencimento do paciente de aceitar um tratamento. Mas não acredito que esse seja seu papel e, sim, o de entender de que formas a internação afeta a vida daquele sujeito”. Sobre os laudos, ele acredita que o psicólogo deva trabalhar para que a demanda não seja por pareceres, mas, sim, por um acompanhamento do paciente.

Por fim, Miguel falou sobre a importância de se pensar não somente se o laudo é uma ferramenta de intervenção, mas de que forma essa intervenção é feita. “O parecer técnico, ou seja, o laudo, desvela-se como uma palavra de ordem, a voz do detentor de poder. Na área do trabalho, por exemplo, mesmo se um sujeito não se sentir em condições de trabalhar, não é ele quem o determina, mas o perito. O indivíduo acaba sendo visto não em sua relação com o mundo, mas como uma máquina. Sendo assim, nós, psicólogos, não teríamos nos tornado mecânicos de corpos produtivos?”.

Texto e foto: Bárbara Skaba

10 de novembro de 2008