Evento preparatório em Petrópolis discute desafios na área de Saúde Mental

Categoria(s):  COREP, Notícias, SAÚDE, SUBSEDE SERRANA   Postado em: 06/02/2007 às 16:25

No dia 2 de fevereiro o CRP-RJ realizou em Petrópolis mais um evento preparatório para o VI Congresso Regional de Psicologia (COREP). O evento teve como objetivo esclarecer aos psicólogos o processo de eleições para o Sistema Conselhos, que ocorre neste ano, bem como explicar a importância dos eventos preparatórios e do COREP. Além disso, houve entrega de carteiras dos psicólogos recém-inscritos e os presentes participaram de uma mesa redonda, cujo tema era a saúde mental.

Participaram do evento Rui Carlos Stockinger, coordenador de Saúde Mental de Petrópolis e Tânia Lucia de Assumpção, psicóloga coordenadora do CAPS Nise da Silveira, localizado no município.

Ambos os profissionais ressaltaram a importância das mudanças ocorridas nos centros de atendimento psiquiátricos durante os últimos anos, e comentaram os desafios para o trabalho dos psicólogos que atuam na área de saúde mental.

Rui Carlos, que assumiu o posto de gestor de Saúde mental de Petrópolis em 2001, apresentou dados sobre os hospitais psiquiátricos do município. “Em 2001, tínhamos falta de atendimento estruturado e contínuo na pós-urgência. Faltava integralidade e hierarquização nos serviços de saúde mental. Entre 2001 e 2004 nós criamos um Conselho Gestor de Rede, implantamos o CAPS Nise da Silveira e o CAPSi Sylvia Orthof, além de outras realizações”.

Rui comentou como tem sido o processo de substituição de um modelo baseado no enclausuramento por modelos de tratamento baseados no cuidado e na liberdade do paciente. Segundo ele, entre 2001 e 2006 houve redução de 86 leitos psiquiátricos em Petrópolis e, desde 2000, o número de internações caiu em 52%.

“Nós trabalhamos com a noção de ‘cuidado’, direcionado à promoção e atualização do sujeito. Nosso foco não é na doença. O cuidado se opõe ao modelo das ‘instituições totais’, onde alguém diz ao indivíduo o que ele deve fazer. Esse modelo costuma desprezar o histórico do sujeito e, ao contrário, com a noção de ‘cuidado’, trabalha-se vendo o sujeito de uma forma integral, total”, disse Rui Carlos.

“Nosso trabalho não é ter pacientes para sempre”, afirma Tânia, que assumiu a coordenação do CAPS Nise da Silveira em outubro do ano passado. Assim como o coordenador de Saúde de Petrópolis, Tânia afirma que a prioridade dos CAPS é garantir a livre circulação dos pacientes: “Temos uma proposta asilar. Os clientes circulam, o espaço não tem cara de hospital. É o paciente que circula pelas oficinas, ele nem mesmo é tutelado por um profissional específico, não é paciente deste ou daquele psicólogo”.

O coordenador de Saúde Mental de Petrópolis afirma que é necessário trabalhar com a noção de “território” do paciente: “É necessário saber o contexto em que o sujeito vive, por onde ele se enlaça, por onde ele vive. É necessário saber seu histórico. Nossos modelos são muito mecanicistas, baseados nas Ciências Naturais. Os serviços públicos são absolutamente impessoais, portanto, nosso desafio é permitir que haja um acolhimento do sujeito, não como uma doença, mas como pessoa. E a noção de cuidado se opõe a isso”. Rui Carlos e Tânia ressaltam que a noção de cuidado dá mais liberdade ao paciente. “Muitas vezes é necessária a visita domiciliar”, diz a psicóloga.
Tânia explicou o funcionamento do CAPS Nise da Silveira, baseado em um projeto multidisciplinar: “Nossa proposta de trabalho é permitir um trabalho em que haja integração entre todas as disciplinas. A nossa preocupação é permitir que todos os funcionários sejam cuidadores. No CAPS, todos os funcionários participam das reuniões de equipe, do psicólogo ao auxiliar de cozinha”, diz a psicóloga.

Rui Carlos afirma que ainda há muito despreparo do psicólogo para o trabalho em equipe. Segundo ele, a categoria, é marcada por um intenso espírito de competição, o que dificulta o trabalho em equipe. Tânia concordou com Rui, afirmando que a formação do psicólogo hoje está focada em um fazer individual e, por isso, o profissional encontra dificuldade ao ingressar no mercado, que exige dele o trabalho coletivo: “É necessário se propor uma grande mudança ao trabalhar transdisciplinarmente. A exigência principal para o trabalho no CAPS é saber trabalhar em equipe, é estar disponível para ouvir o outro”, diz Tânia.

Texto: Jean Souza

06 de fevereiro de 2007