Debate “Psicologia e Resistência: A luta das mulheres” reúne psicólogas (os) e estudantes na sede do CRP-RJ

Categoria(s):  DIREITOS HUMANOS, Notícias   Postado em: 28/03/2017 às 14:37

PalestrantesNo intuito de dar visibilidade à luta das mulheres, enaltecendo suas conquistas, seus entraves e enfrentamentos ainda hoje necessários, o CRP-RJ, em parceria com o IPSi- Instituto de Psicologia/UFF, através do projeto Por que também temos que falar de violência (IPSi/UFF), promoveu, no dia 17 de março, na sua sede, na Tijuca, a mesa de abertura do Ciclo de Palestras “Psicologia e Resistências: a luta das mulheres”. A UNIVERSO e a FAMATH, através de seus cursos de psicologia, também apoiaram a iniciativa abrindo as suas portas aos debates.

Organizado pela conselheira do CRP-RJ e professora da UFF Paula Land Curi (CRP 05/20409), o evento foi o primeiro de um ciclo de debates que aconteceu entre 21 e 23 de março nessas importantes universidades do município de Niterói.

A conselheira-presidente do CRP-RJ, Diva Lúcia Gautério Conde (CRP 05/1448), deu início ao encontro agradecendo “a iniciativa da companheira Paula Land em organizar esse importante evento”. Conforme afirmou Diva na ocasião, “estamos aqui para fazer um debate cujo tema, entra século sai século, continua absolutamente relevante. A luta não terminou, ela não está amenizada. É preciso que estejamos juntos, unidos nessa causa”.

A primeira palestrante a falar foi Nympha do Amaral, psicanalista e professora do curso de especialização em Psicanálise e Saúde Mental no Instituto de Psicologia da UERJ. Acho melhor ver com a Nympha pois ela é técina, psicóloga, no IPUB. “A luta crescente das mulheres contra os abusos cotidianos tem me instigado muito. Tenho tentado pensar essa situação a partir do meu lugar de mulher e psicanalista. Mas adianto que esse lugar de falar da opressão das mulheres não é muito confortável por conta das questões que envolvem a própria teoria psicanalítica”, afirmou.

“Eu quero aqui afirmar minha posição situada no feminismo interseccional de esquerda, que reconhece a opressão quer todos sofrem num regime pautado pelo amor ao lucro e pelo desprezo ao ser humano. Dou destaque à dupla opressão que recai sobre mulher nesse regime cruel, sendo a mulher, dentro dos oprimidos desse regime, a escória dos oprimidos junto aos negros, homossexuais, travestis e transexuais. Nesse sentido, não somos nunca rivais na luta contra o racismo e a homofobia”, defendeu a psicanalista.

A conselheira-presidente do CRP-RJ, Diva Lúcia Gautério Conde (CRP 05/1448). Foto: Ascom/CRP-RJ

A conselheira-presidente do CRP-RJ, Diva Lúcia Gautério Conde (CRP 05/1448). Foto: Ascom/CRP-RJ

Em seguida, Nympha apontou, a partir de um fato que recentemente ganhou notoriedade pública, o que chamou de “desapropriação absoluta do discurso da mulher”. “Nessas últimas semanas, estivemos diante de um fato polêmico: como todos sabem, um cantor sertanejo famoso foi acusado de chutar e bater na esposa, que foi à polícia denunciá-lo. Logo a seguir, deu-se início à ‘operação abafa’, num jogo de descrédito sobre o discurso da mulher, uma grande pressão que faz a própria mulher voltar atrás e desmentir sua própria denúncia. Desencadeando um resultado tristíssimo, pois o homem, que dá as caras nos meios de comunicação, posa como pai de família, amantíssimo e discreto, sempre no benefício da preservação da família. E os homens, e também muitas mulheres, passam a dar crédito à fala masculina, desacreditando na fala da mulher, que segue emudecida”.

Ludmilla Fontenele, assistente social, professora da UFRJ, doutora em Ciências da Saúde pelo IFF/FIOCRUZ e pesquisadora na área de Saúde Reprodutiva e Prevenção da Violência Sexual, foi a segunda palestrante do evento. Sua fala teve como tema “Enfrentamento à violência sexual contra a mulher: desafios interdisciplinares”.

“A violência sexual é entendida hoje como a manifestação da violência de gênero mais cruel”, destacou a palestrante, explicando a seguir os três momentos distintos e quem, conceitualmente, a violência de gênero era pensada e debatida.

“No primeiro momento, considerava-se a violência contra a mulher como um fenômeno dirigido à mulher, que ocuparia, então, um lugar cristalizado de vítima, um lugar que não é possível ser superado. Num segundo momento, passou-se a se chamar violência de gênero, entendendo, ainda nesse momento, gênero como um conceito binário, mulheres x homens, masculino x feminino”, explicou.

“Com a aproximação do feminismo francês, o conceito de gênero passa a ser pensado do ponto de vista relacional. Logo, em sendo relacional, pode-se entender a violência como algo que pode ser perpetrado por homens contra mulheres, mulheres contra mulheres, mulheres contra homens, homens contra homens, desenvolvendo um olhar sobre que relações de poder fazem parte dessas relações de violência. E isso tudo vem embalado por um cultura do estupro, que não é nova, mas que agora tomou conta da mídia”, argumentou a professora da UFRJ.

“Um importante marco conceitual utilizado no campo das políticas públicas é entender a violência de gênero como qualquer ação ou conduta baseada no gênero e que causa morte, danos ou sofrimentos físicos, sexuais e psicológicos no âmbito público ou privado. Essa conceituação serviu para as demais conceituações no campo da Saúde e da Assistência Social”, afirmou.

Por fim, Anna Paula Uziel, professora da UERJ e coordenadora do LIDIS (Laboratório Integrado em Diversidade Sexual e de Gênero, Políticas e Direitos), centrou sua palestra no tema “Sexo e maternidade: a prisão e os femininos”.

Conforme ressaltou no início de sua fala, “em 15 anos, tivemos um aumento da população carcerária feminina de 567%. Não nos damos conta desse aumento porque a população feminina ainda responde por apenas 7% do total da população carcerária brasileira”.

Segundo a professora da UERJ, “boa parte dessas mulheres é presa por tráfico de drogas, geralmente porque ajudaram, em algum momento, o marido, namorado ou companheiro. Elas são encarceradas, em sua maioria, entre 18 e 30 anos. Ou seja, são encarceradas muito jovens, grande parte delas com baixa escolaridade e profissionalização quase inexistente”.

Em seguida, Anna Paula falou sobre a situação da mulher encarcerada a partir de pesquisas que vem realizando em duas unidades femininas no Sistema Prisional de adultos e em uma unidade feminina do DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas).