10 anos: memórias de um desastre

Categoria(s):  EMERGÊNCIAS E DESASTRES, NOTAS, Notícias, Últimas Notícias   Postado em: 11/01/2021 às 13:49

10 anos: memórias de um desastre

 

Samira Younes Ibrahim. Psicóloga (CRP 05/7923), membro da Rede de Cuidados-RJ/Psicologia em Emergências e Desastres, compôs a Comissão Gestora de Petrópolis para a Região Serrana na gestão do XII Plenário do CRP-RJ.

 

“Como se tivesse acontecido ontem” é uma fala frequente dos sobreviventes do desastre socioambiental da região serrana do Rio de Janeiro. A dor presente, os testemunhos interrompidos pelo choro, as lembranças das perdas de pessoas queridas e uma história de vida abruptamente arrancada em uma onda de lama, estão presentes nos trabalhos e pesquisas realizados nos últimos 10 anos pela Rede de Cuidados-RJ, ONG que atua em comunidades afetadas em desastres e com suporte para profissionais. Encontramos, também, sobreviventes que mostram indignação e força para re-existir diante do abandono sofrido pelas comunidades perante a falta de soluções para suas lutas com relação à moradia, indenização, reconstrução de suas redes afetivas e a busca pelos desaparecidos.

Muitas pessoas ficaram desaparecidas por um longo tempo e, outras, permanecem até hoje. Tal situação é fonte geradora de dor e angústia, comprometeu rituais de luto, além de prejudicar resoluções práticas, como não conseguir atestado de óbito, inviabilizando possíveis recebimentos de pensão, seguros, impedimento de cobranças, entre outros. Os sobreviventes buscam por seus familiares. Mas o tratamento diferenciado é contrastante quando comparado com o empenho dos órgãos públicos na continuidade das buscas pelos desaparecidos no desastre da Vale em Brumadinho (2019).

Entre a noite de 11 e a madrugada do dia 12 de janeiro de 2011, moradores de municípios da região serrana do Rio de Janeiro foram acordados com temporal, barulhos terríveis, outros nem dormiram, “tomando conta da chuva”. As cidades mais afetadas foram Nova Friburgo, Teresópolis, Petrópolis, Areal, São José do Vale do Rio Preto e Bom Jardim. O desastre foi caracterizado pela Defesa Civil como deslizamentos, escorregamentos e variados tipos de fluxos d´água, resultando em mais de 900 mortes e deixou cerca de 45.000 desabrigados e desalojados. Porém, pela intensidade da tragédia e os testemunhos colhidos nos trabalhos de campo realizados nos municípios, acreditamos que os números acima são maiores.

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Foto: acervo pessoal. Bom Jardim, janeiro de 2011.

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Foto: acervo pessoal. Petrópolis, Vale do Cuiabá, 2011.

Além das perdas humanas e materiais sofridas, os afetados tiveram e ainda têm que lidar com os problemas causados pelo modelo de resposta dos órgãos públicos que intensificam e conservam o sofrimento emocional e social. São ações do poder econômico, político e institucional que acentuaram a manutenção da exclusão e das diferenças sociais e econômicas dos afetados pelo desastre, que colocou uma lupa sobre discriminações já vivenciadas pelas comunidades atingidas.  São memórias dos moradores que denunciam a ausência do poder público a serviço das comunidades, anterior a 2011.

Importante destacar que diante da complexidade das dimensões que envolvem os desastres, eles não deveriam ser considerados como naturais. Eles são construídos ao longo do tempo, gerados por desigualdades econômicas, sociais e políticas e afetam pessoas e comunidades de forma diferenciada.

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Foto: acervo Rede de Cuidados-RJ. Oficina de fortalecimento de lideranças comunitárias, Teresópolis, 2012.

E “Quanto tempo dura um desastre?” Ele permanece enquanto durar o sofrimento social dos sobreviventes. Após 10 anos, o desastre continua para os afetados da tragédia da região serrana do Rio de Janeiro.

Há mais de 10 anos o Conselho Regional de Psicologia do Rio de Janeiro (CRP-RJ) considera o tema emergência e desastres em seus planejamentos estratégicos.  A Comissão de Psicologia em Emergências e Desastres do CRP – RJ acompanha o crescente interesse de psicólogas e psicólogos empenhados no estudo e pesquisa sobre o tema, dedicando-se à construção desse conhecimento e às demandas sociais contemporâneas. O trabalho do profissional nessa área é essencial, assim como identificar e compreender o complexo conjunto de forças de poder que atuam no contexto dos desastres, para que suas ações não sejam manipuladas e os direitos humanos sejam produzidos e assegurados.