Página Principal > Notícias > Notícias 2010 > “É preciso desconfiar de tudo”
A psicóloga Cecília Coimbra (CRP 05/1780) não acredita mais que a política convencional possa resolver os problemas da desigualdade pelo mundo. Em conferência no VI Seminário de Psicologia e Direitos Humanos, no último dia 10 de setembro, ela defendeu a aposta nas ações de micropolítica e criticou a cooptação de movimentos sociais pelos interesses do capital.
Para Cecília, que é presidente do Grupo Tortura Nunca Mais/RJ, o Estado hoje se diz garantidor dos direitos sociais, mas acreditar nisso é cair em uma “armadilha”. De acordo com a psicóloga, o que move o mundo na conjuntura atual é o interesse do capital e o pouco que se faz em termos de políticas públicas só é feito por causa das lutas da sociedade civil organizada.

Conferência de Cecília Coimbra
Segunda ela, entretanto, é preciso cuidado. “Os movimentos sociais estão sendo cooptados pelos cantos de sereia do neoliberalismo. É o que aconteceu, por exemplo, com o Evo Morales na Bolívia e com as Madres de Mayo na Argentina, que hoje são um braço político do governo Kirchner”, explicou. “A gestão do capital hoje, na América Latina, se dá por meio das chamadas democracias ‘populares’, que de popular não têm nada”. É por isso que, para ela, a alternativa está em estimular a micropolítica, o que não significaria uma oposição à macropolítica, mas apenas uma nova frente de luta.
Antes da palestra, aconteceu no seminário uma oficina de grafite e o responsável, o grafiteiro Dant, preparou um painel especial que foi exposto durante a conferência. Cecília elogiou o trabalho do artista e ressaltou, então, que é justamente esse o tipo de prática que precisa ser fomentado. “Precisamos continuar ainda a ser uma pedra no sapato dos governos, para mostrar que nós não fomos cooptados.”
A psicóloga advertiu também para uma tendência discursiva que utiliza os especialismos para demarcar os leigos. Assim, são definidos no debate público aqueles que não podem falar sobre determinado assunto porque não são especialistas. “Mas eu acredito que é nesses pequenos saberes cotidianos que temos que investir.”
Outro ponto importante a ser pensado, segundo Cecília, é a saturação do discurso dos direitos humanos hoje. “Criar comissões de direitos humanos, falar sobre direitos humanos já não significa nada. Todos fazem. Até o Bush”, ironizou. “Temos que pensar em nossas práticas diárias, pois são elas que determinam os resultados do que vemos no mundo”, criticou.
Para a psicóloga, é essencial desconfiar de tudo, porque hoje a dominação se faz cada vez mais pela implantação de ideias e pela produção do pensamento, de modo que uns poucos pensam por todos os outros. “Nós naturalizamos tudo e nos acostumamos com o que tem de pior sem o menor senso crítico. Naturalizamos, afinal, o que não é nem um pouco natural”, declarou.
Ao final, Cecília lembrou também da comemoração do aniversário do Grupo Tortura Nunca Mais, que está completando vinte e cinco anos. “É uma data importante, mas quem dera que não precisássemos mais existir”, comentou.
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Texto e fotos: Ricardo Cabral
15 de setembro