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Notícias 2010

Mesas em Seminário debatem o diálogo entre saberes nas emergências e nos desastres e a formação do psicólogo

A segunda mesa do II Seminário da Rede de Cuidados da Região Serrana/Psicologia das Emergências e dos Desastres, O diálogo entre os saberes, contou com a presença de Américo Sommerman, co-criador do Centro de Educação Transdisciplinar, membro ativo do Centre International de Recherches et Etudes Transdisciplinaires (CIRET) e mestre em Ciências da Educação pela Universidade Nova de Lisboa.

palestra de Américo Sommerman
palestra de Américo Sommerman

Palestra de Cecília Coimbra
Palestra de Cecília Coimbra

Em sua fala, ele abordou a relevância de haver interlocução entre saberes e disciplinas em situações de catástrofes naturais. “Há contextos de emergências e desastres que demandam intervenções de diferentes saberes e profissionais. Nesses casos, como favorecer o diálogo entre as diferentes dimensões de saber e atuação e como gerir as complexidades quando emergências e desastres implicam situações como estas?”, questionou.

Américo refletiu sobre o conceito de transdisciplinaridade e considerou que o grande desafio da transdisciplinaridade é conseguir articular os diferentes saberes de culturas, profissionais, instituições e atores sociais diversos.

Ainda segundo ele, “o que observamos na contemporaneidade é a pouca capacidade de dialogar com outros modos e campos de produção do saber, uma vez que a compartimentalização do saber tem um lado enriquecedor, pois permite com que cada saber possa ser aprofundado, por outro ela empobrece por conta do pouco diálogo entre os saberes. A ideia da transdisciplinaridade é a troca, o partilhar dos saberes”.

A psicóloga Cecília Maria Bouças Coimbra (CRP 05/1780), professora da UFF e presidente do Grupo Tortura Nunca Mais-RJ, colocou em análise, na mesa A formação do psicólogo em questão, os principais aspectos que caracterizam a formação e Psicologia, a qual, segundo ela, ainda é dominada pela razão positivista e pouco privilegia a transversalidade.

De acordo com ela, essa formação é voltada para dois pilares. “O primeiro é a crença na essência. Eu trabalho numa linha filosófica que questiona a linha essencialista, essa linha que diz que o psicólogo vai procurar quem é o sujeito, que diz que há uma essência nas coisas e cabe ao especialista, ou seja, nós, psicólogos, encontrá-la. O que quero trazer para pensar é essa essencialização das coisas, dos saberes, dos sujeitos, do mundo porque as coisas estão sempre se fazendo, estão em um processo de transformação”, sentenciou.

“O segundo pilar é a individualização que a Psicologia adora fazer e o capitalismo mais ainda. Tudo é remetido a um individuo único. Bem, nós somos muitas coisas, e muitas coisas em processo de transformação. Nós, os profissionais das ciências humanas e sociais, somos extremamente arrogantes, acreditamos que vamos chegar sempre na essência do sujeito, esse sujeito único”, explicou a psicóloga.

Ainda segundo ela, a constituição da Psicologia encadeada no contexto do aparecimento das ciências humanas representou outro grande problema. “A grande perversidade da emergência das Ciências Humanas e Sociais foi o poder de dizer sobre o outro, de observar e controlar o outro, pois em cima do saber dessas pessoas se produz outro saber, um saber seqüestrado desses sujeitos, como diz Foucault. Por isso nosso grande desafio é estar atento à nossa atuação, pois é tênue o limite entre o cuidado e o controle”.

Cecília também teceu críticas à corrente de especialização da Psicologia. “Precisamos repensar esse dito especialista para ver o psicólogo não como mais um especialista no mundo, mas sim como um trabalhador social. Precisamos pensar a Psicologia como um saber que não comporta especialismos, como um saber que deve ser transversalizado”.

“Durante muito tempo, eu fui considerada política, não psicóloga. Mas, para mim, ambas as cosias não se dicotomizam. Precisamos pensar a Psicologia das Emergências e dos Desastres tentando transversalizar esses saberes sem perder a sensibilidade nem nossa capacidade de acolhimento. Isso é uma questão política, não técnica”, concluiu.

Texto e fotos: Felipe Simões

24 de agosto de 2010

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