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Notícias 2010

Roda de conversa sobre formação em Psicologia é realizada na IV Mostra

As atividades do segundo dia da IV Mostra Regional de Práticas em Psicologia foram iniciadas com uma roda de conversa organizada pela Comissão de Estudantes do CRP-RJ para debater o tema “Forma-ação que forma, que ação diálogos de saberes e práticas profissionais”. Para disparar as discussões, foram convidados o psicólogo clínico e professor aposentado Carlos Alberto Marconi (CRP 05/1897), a estudante de Psicologia da Universidade Federal Fluminense Diana Lazera e a psicóloga Claudia Neves Pinto (CRP 05/39027). Ana Paula Uziel, professora de Psicologia da Uerj e colaboradora da Comissão de Estudantes, foi a mediadora da roda.

Psicólogos e estudantes participam da roda de conversa.
Psicólogos e estudantes participam da roda de conversa.

Ana Paula ressaltou a importância da relação do Conselho com os estudantes de Psicologia, além das contribuições mútuas que podem ser feitas. “Encontros como esse mostram a ética e o compromisso social sendo colocados em prática”. Outro ponto para o qual ela chamou atenção foram os princípios que orientam a formação e as possibilidades e impasses que isso gera. Segundo a professora, “é preciso ficar atento a que tipo de psicólogo se quer formar hoje e quais os limites estabelecidos para se criar e reproduzir o que já está aí”.

Sobre isso, a convidada Cláudia Neves comentou que, na sua formação, a oferta de estágios pela universidade foi predominantemente na área clínica e que não foi oferecido estágio na área da Psicologia Social, o que contribuiria para limitar o campo de atuação dos psicólogos, sobretudo no que se refere à possibilidade de promover a saúde e a qualidade de vida das coletividades. Atualmente, Cláudia faz parte de um grupo que está desenvolvendo uma pesquisa sobre a representação social da desigualdade social para graduandos de Psicologia.

“Um fato que chamou a atenção do grupo, ao obter os resultados preliminares da pesquisa, após a análise do conteúdo das respostas obtidas em 102 questionários aplicados em uma universidade particular do Rio de Janeiro, foi que, embora 78,5% dos alunos considerassem poder contribuir para uma sociedade mais igualitária, apenas 6% deles disseram que poderiam fazê-lo prestando serviços como psicólogos”, afirmou, acrescentando que a Psicologia pode contribuir para a melhoria da qualidade de vida na sociedade na medida em que trabalha com a subjetividade. Segundo ela, “através do trabalho com grupos, criando espaços de reflexão e produção de conhecimento, os psicólogos podem atuar no sentido de promover uma participação mais ativa das pessoas no contexto social”.

A estudante Diana Lazera contou que abordará a questão da formação em sua monografia de conclusão de curso. “Resolvi pesquisar sobre a prática do psicólogo depois que ele sai da universidade, o que ele faz e com o que trabalha. Cria-se um mito de que a forma e a ação estão dissociadas. Minha pesquisa pretende desmistificar exatamente isso”.

Carlos Marconi encerrou as falas dos convidados afirmando que a predominância da clínica na Psicologia é resquício do seu início enquanto ciência. “O psicólogo antes não podia clinicar, estando submetido aos poderes do médico. Com isso, a parte social ficou relegada a segundo plano porque havia uma preocupação maior em habilitar os profissionais para atuarem na clínica. Foi apenas da década de 1970 que se começou a pensar nas questões sociais”.

O palestrante lembrou também que a Carta de Serra Negra, resultante de um encontro de representantes de cursos de todas as agências formadoras do Brasil, em 1992, foi emblemático para que se repensasse a formação no país. “A partir desse encontro, começou-se a pensar a Psicologia com compromisso social e atuante direta na promoção da saúde”.

Durante o debate, diversos estudantes contaram um pouco sobre suas experiências de estágio na área. Um deles, aluno na Uerj do 9º período, comentou que o costume de ficar na faculdade conversando ou estudando com amigos já não acontece mais com tanta frequência. “Agora, se procura transformar a teoria em prática de uma hora para a outra, de uma maneira mais individualista. A hegemonia da clínica é um reflexo da sociedade atual. No consultório, o psicólogo tem um paciente que é só dele ao invés de trabalhar com o coletivo”.

Ainda sobre isso, outro estudante, da Universidade Celso Lisboa, acredita que a formação mercadológica está se sobrepondo à ideológica. “Há uma gestão do ensino mais preocupada com o retorno financeiro que a formação dos alunos pode gerar do que com o ensino em si”.

Outra questão levantada foi a estrutura da formação em Psicologia. Uma psicóloga recém-formada afirmou que a forma como ela é feita atualmente acaba por enrijecer a prática e não permite criar coisas novas. “A clínica conhecida hoje ainda é baseada no divã do Freud. Temos que usar as ferramentas existentes para inovar e sair do planejamento”.

Um estudante acrescentou que a formação mais preocupada com a forma do que com a ação não permite que os estudantes tenham contato com o que se produz de novo. “Eventos como a Mostra nos ajudam a ter uma visão mais ampliada da área, o que contribui para que se desenvolva um trabalho menos pontual”.

O conselheiro-presidente do CRP-RJ, José Novaes, encerrou o encontro afirmando que, apesar das agências formadoras estarem sob ingerência do Ministério da Educação, o CRP pode e deve interferir de maneira positiva sempre que possível. “Precisamos estar atentos à formação dos psicólogos porque, ao terminarem a graduação, estarão diretamente ligados a nós”.

Veja a cobertura completa da IV Mostra.

Texto: Ana Carolina Wanderley | Fotos: Bárbara Skaba

26 de julho de 2010

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