Página Principal > Notícias > Notícias 2007 > Memória para uso diário, um filme de Beth Formaggini
No dia 28 de julho, o Grupo Tortura Nunca Mais lançou, no cineclube ABD&C na Casa de Rui Barbosa, o documentário Memória para uso diário. O filme, dirigido por Beth Formaggini, tem como base a história de Ivanilda, uma brasileira que busca provas de que seu marido, desaparecido desde 1975, foi preso pelo governo brasileiro. Acompanhando seus passos, o filme mostra ainda a realidade de outros brasileiros que choram a perda de seus familiares vítimas da tortura de ontem e de hoje.
Leia abaixo um texto sobre o filme escrito pelo psicólogo Eduardo Passos, membro do Grupo Clínico-Grupal do GTNM.
É preciso dizer da alegria de assistirmos o filme Memória para uso diário. O GTNM tem agora um filme que documenta a sua luta, que dá a imagem de seu movimento.
O cine documentário talvez seja mesmo o meio apropriado para acompanhar e expressar a militância de um movimento social. Por quê? Porque o cinema é imagem-movimento – um estranho movimento, é verdade, já que é produzido por fotogramas, por uma série de quadros que postos lado a lado em um certo ritmo dão a sensação do movimento: um falso movimento? Do ponto de vista da experiência subjetiva não há diferença entre movimento real e falso movimento. O que assistimos na tela experimentamos como movimento. Vivemos como um movimento.
Por isso o cinema pode ser tão diferente da fotografia: a foto muito frequentemente quer registrar, quer dar testemunho de uma realidade vivida no passado, deixada no passado. Dessa realidade passada, a foto pode ser como um monumento que aponta para traz, que indica o que já era (um álbum de fotografia tem sempre um aspecto nostálgico, triste, até mesmo melancólico). O cinema, por outro lado, mesmo quando é documentário, porque é imagem-movimento editada, cria aquilo de que trata, sendo menos um retrato do que uma versão do passado. É o caso do documentário Memória para uso diário que vai ao passado sem olhar para trás (tal como Orfeu), recuperando imagens de uma história só vivida e não narrada (grande mérito do trabalho de pesquisa das imagens de arquivo). O filme faz o gesto da abertura dos arquivos, nos indicando que não basta abri-los, sendo ainda preciso completar a tarefa contando uma outra história. O filme faz o gesto e registra o gesto como este movimento tão delicado das mãos de Lola e Cléa ao folhear o passado. Só o cinema pode ter a realidade do gesto, acompanhando-o ao mesmo tempo em que o reinventando. Neste sentido, o cine documentário não está no tempo passado, não tem a nostalgia do vivido. Ele está neste tempo da invenção que é o tempo do porvir, do que poderá ser, não do que já era, mas do que já é. Do que já é como potencialidade, como abertura para outras realidades possíveis. No documentário filmamos o futuro, ou melhor, filmamos no horizonte do futuro.
Como pode ser um filme sobre a memória? O que este filme quer nos dizer quando afirma ser um documentário sobre a memória? O seu título nos dá uma pista: Memória para uso diário. Fala-se de memória enquanto uso. Está se indicando que há um sentido pragmático da memória. Daí as perguntas: para quê serve a memória? Para quem serve esta memória? O GTNM desde 1985 tem feito estas perguntas, indicando que há uma luta a ser travada no campo da memória. Há uma história oficial contada, há uma versão hegemônica acerca das lutas, sejam as lutas de resistência ao terrorismo de Estado durante os 20 anos da ditadura militar no Brasil, sejam as lutas atuais, tão cotidianas, que transferem a tecnologia da violência daqueles tempos para as periferias pobres da cidade. Dar uma outra versão para os eventos vividos é não só buscar reparação aos atingidos pela violência do Estado, é não só denunciar e levar ao julgamento os responsáveis pela violação dos direitos humanos, é, sobretudo, poder ser protagonista na narrativa da história, é poder também dar a sua versão, é poder dar um outro sentido para o passado, apostando em outros mundos possíveis, apostando no futuro. Uma memória que aponta para o futuro.
O filme Memória para uso diário foi editado como uma trança (parabéns às editoras Márcia Medeiros e Litza Godoy). Vários fios da vida foram sendo tecidos: o fio insistente da vida de Ivanilda buscando informações sobre seu marido por 31 anos; os fios tão delicados das vidas de Cléa e Lola; os fios elétricos das vidas de Cecília e Flora; os fios de aço das vidas de Rosilene e Maria Dalva; o fio da solidariedade daqueles que como Ana ajudaram a construir o projeto do filme – tantos fios de vida ligados por um plano comum que é tanto o plano da edição do filme, quanto o plano do movimento Tortura Nunca Mais. Compor este plano comum, dar consistência a ele é um trabalho de militância. Nossa militância é a da aposta no comum, é a luta pelo comum. Temos, portanto, neste filme as imagens-movimento de uma aposta política, sabendo agora que há muitas maneiras de militar e que Beth Formaggini afirmou conosco a sua.
06 de agosto de 2007