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Notícias 2006

Psicologa é feita de refém em hospital psiquiátrico de Bangu

No dia três de março, a psicóloga colaboradora da Comissão de Direitos Humanos do CRP RJ, Ana Carla Silva, que trabalha no Hospital Psiquiátrico do Complexo Penal de Bangu, foi vítima, junto com a equipe de saúde do hospital, de uma situação violenta e extrema, ao ser feita de refém por internos. O episódio demonstrou a precariedade do Sistema Prisional, tanto no que diz respeito à segurança quanto às condições de vida e trabalho. O CRP 05 quer expressar seu repudio a essa situação lastimável em que se encontra nosso Sistema Prisional. Reproduzimos abaixo o depoimento da psicóloga em que ela relata essa experiência.

Queridos amigos,

Agradeço as manifestações de apoio que tenho recebido daqueles que já souberam do ocorrido em 03 de março. Para os que ainda não tem conhecimento, segue o que aconteceu:
Toda a equipe de saúde presente no dia 03 de março no Hospital Psiquiátrico do Complexo Penal de Bangu, onde trabalho, virou refém dos internos da unidade por conta de uma rebelião iniciada no período da tarde. Outras pessoas da unidade saíram fugidas pelo buraco do ar condicionado. Foi uma sensação horrível a de sermos dominados no nosso ambiente de trabalho e ainda por internos que tratamos. Antes de chegarem até nós haviam amarrado e algemado os agentes penitenciários. Para mim não ficou clara a motivação inicial da rebelião.

As reivindicações que faziam enquanto usavam a mim e a uma auxiliar de enfermagem como escudo humano devido à chegada do policiamento eram por resolução de questões individuais: encaminhamento da situação jurídica, sentimento de humilhação e desconsideração. Havia também aqueles que queriam simplesmente fugir. Durante a negociação dos internos com a direção da unidade e uma autoridade do sistema, eu e uma das auxiliares de enfermagem
tínhamos próximas às nossas gargantas ferramentas utilizadas como armas (graças a Deus não havia revólver nem faca na área, pois um agente conseguiu trancar a cozinha a tempo). Em situação de maior tensão, eles gritavam que poderiam nos matar caso houvesse invasão dos policiais.

Contudo, a abordagem feita a eles por nós era facilitada pelo respeito que tinham ao nosso trabalho (construção do vínculo). Eles diziam, inclusive, que não queriam nos machucar. Outros internos ameaçavam o hospital com uma bomba e parece que houve tentativa de incêndio, mas disso não tenho certeza. A negociação chegou ao fim com os internos retornando às suas galerias, alguns receosos de sofrerem agressão. Após sermos libertadas, nos trancamos na galeria feminina para nos proteger até o fim da rebelião e para evitar uso de novos escudos humanos (ficar atrás das grades neste momento foi um alívio!). Senti que houve pouca mobilização dos internos para a rebelião (eram poucos os que estavam à frente). Com a situação contornada conseguimos sair da unidade e aguardar a revista do policiamento.

Cerca de uma hora e meia depois de tudo isso, autorizaram nossa entrada no hospital. As salas das equipes não pareciam ter sido mexidas, mas algumas portas de madeira foram arrancadas em busca dos reféns. Ao final eu e o outro psicólogo percorremos a unidade para verificarmos a situação emocional dos agentes, alguns muito abatidos, outros revoltados. Tivemos de ouvir coisas como "estão vendo quem são os vagabundos de que vocês querem cuidar?". Comentários que senti que não valorizavam o trabalho da equipe, já que não teria o que fazer com tais pessoas, por serem "vagabundos, bandidos". Neste sentido, se a idéia era essa (devemos considerar que estávamos todos abalados), desfoca-se o problema e acho que isto não pode acontecer. Para mim, as questões centrais são: a falta de segurança na unidade e em todo o sistema, as más condições de trabalho (tamanho da equipe de segurança, por exemplo), a vulnerabilidade da equipe de saúde e outras pela inexistência de rotas de fuga, a negligência no acompanhamento jurídico do interno (não há presença de defensor público na unidade, algo grave principalmente para aqueles que não tem família próxima) e as ificuldades no préstimo da assistência (escassez de medicação, falta de material e de espaço para atividades terapêuticas etc.).

Acredito que o bom vínculo construído ao longo do tempo, seja com a direção da unidade, com a equipe técnica e com agentes ajudou para o término da rebelião. Vale lembrar, falo aqui de um Hospital Psiquiátrico. Temos de cuidar para que nestas situações limites a visão manicomial não impere e que os profissionais de saúde não saiam como aqueles que impedem a ordem da
instituição penal.

Eu e meus colegas estamos bem, pelo menos fisicamente. Durante a situação não me desesperei. Senti medo, claro. Agora estou mais calma e tentando entender as coisas com mais clareza. Aumentarei minha cautela quando for trabalhar (sim há internos perigosos e violentos, desesperados por sua condição e agentes abusadores do poder exercido). Mas acho que não devemos ceder em pontos fundamentais dos Direitos Humanos para os internos nem
para as equipes profissionais (de segurança e saúde) que dizem respeito à responsabilização das autoridades ao modo de funcionamento precário e negligente destas instituições, que produzem como um dos resultados rebeliões que volta e meia ocorrem nas unidades prisionais.

Precisava colocar para fora este ocorrido pois não quero que esse horror se repita comigo nem com mais ninguém. Não podemos naturalizar a violência institucional e aquela que ocorre no cotidiano das cidades, fora dos muros. Não quero falar disso sozinha e, neste sentido, continuo valorizando espaços coletivos extremamente importantes que lutam pela defesa da vida, contra a exclusão e contra as injustiças, como a Luta Antimanicomial e aquelas em defesa dos Direitos Humanos.

Saudações Antimanicomiais,
Ana Carla

09 de março de 2006

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